Idealização no namoro e o amor despertado antes do tempo

"Não desperteis o amor até que este o queira" é um conselho que se repete três vezes no livro de Cântico dos Cânticos. Ele lembra que o amor tem um tempo para amadurecer, e que despertá-lo cedo demais, pela pressa, pela sensualidade ou pela idealização, leva a pessoa a se apaixonar por um personagem, e não por um ser humano real. Idealizar não é amar.

O que significa "não desperteis o amor até que este o queira"?

Está escrito em Cântico dos Cânticos 2:7, e a mesma frase volta em 3:5 e 8:4. Quem fala é a noiva, que pede às amigas que não despertem o amor antes que ele o queira. A repetição não é por acaso: é o refrão do livro. No meio de um poema cheio de desejo e beleza, o texto insiste numa ideia de espera. O amor é bom, mas tem tempo certo.

Uma pessoa sorri, é gentil, puxa conversa, e pronto: já despertamos um amor que nem existe. A gente desperta através da sensorialidade, provoca através do sexo, da roupa, da sensualidade, e chama de amor algo que ainda nem é amor. Já se apaixona, já idealiza, já quer controlar a pessoa, e não sabe lidar com o ser humano real.

O que é idealização no namoro?

Idealizar é preencher com imaginação o que ainda não se conhece da outra pessoa. A gente vê três qualidades e inventa as outras dez. Cria um personagem que fala o que queríamos ouvir, reage como gostaríamos e cumpre a promessa que ninguém fez. Cedo ou tarde o personagem dá lugar à pessoa, e a decepção não vem do outro: vem da distância entre quem ele é e quem a gente inventou.

Por que é tão fácil idealizar quando estamos apaixonados?

A paixão mexe com o cérebro de forma intensa. Pesquisas com neuroimagem mostram que, no início de uma paixão, ver a foto da pessoa amada ativa regiões ligadas ao sistema de recompensa, as mesmas envolvidas na motivação e no desejo (Fisher e colegas, 2005). É por isso que o começo parece tão urgente, e por isso também que é o pior momento para tomar grandes decisões. Escrevi sobre esse funcionamento em Antes do crush, o cérebro.

Idealizar é sempre ruim?

Não completamente, e vale ser honesta sobre isso. Pesquisas com casais mostraram que olhar o parceiro de forma um pouco mais generosa do que ele mesmo se vê está associado a relações mais satisfeitas (Murray, Holmes e Griffin, 1996). Enxergar o melhor do outro faz bem. O problema começa quando a visão deixa de se apoiar em quem a pessoa é e passa a se apoiar em quem a gente precisa que ela seja.

A diferença é esta: generosidade vê o que existe com bons olhos. Idealização vê o que não existe.

O que a idealização faz com a gente?

Quem idealiza demais não está preparada para viver um relacionamento a dois com seres humanos na vida real. Quanto mais você se ilude, menos preparada e mais imatura fica para viver um relacionamento. Casamento não é para crianças.

E há um risco mais sério. Quem idealiza tende a ignorar sinais: a grosseria vira "dia ruim", o controle vira "cuidado", a ausência vira "ele é assim mesmo". É assim que muita gente repete a mesma história, como contei em por que sempre escolho a pessoa errada. Pedir alguém perfeito, aliás, é a idealização em forma de oração, como escrevi em pedir um marido de Deus não é pedir um boneco.

Para tudo há um tempo?

Eclesiastes 3 lembra que para tudo há um tempo. O amor precisa de tempo para amadurecer. Quando chegamos desesperadas para conquistar alguém, podemos acabar conquistando justamente quem vai nos ferir. E isso vale para homens também: muitos caem nas mesmas ciladas.

Esperar não é ficar parada. É usar o tempo para conhecer a pessoa de verdade, deixar que as atitudes se repitam antes de tirar conclusões e se conhecer também.

Como parar de idealizar alguém?

Para quem é mãe ou pai, essa conversa vale ouro antes do primeiro namoro dos filhos, como mostro em cobrar não é ensinar.

Antes de amar, aprenda a existir.

Referências

Texto revisado em outubro de 2026. Conteúdo educativo: não substitui acompanhamento psicológico.