Infância e pais

Criança mentindo: o que fazer?

Honestidade não nasce do medo. Nasce da confiança.

Ni OliveiraPor Ni Oliveira, psicóloga · · 4 min de leitura

Quando a criança mente, a melhor resposta não é desmascarar nem castigar com dureza: é manter a calma, tornar fácil dizer a verdade e mostrar que a verdade é valorizada. Mentir é uma etapa esperada do desenvolvimento, sinal de que a criança começou a entender que os outros pensam diferente dela. O que os pais fazem diante da mentira é o que ensina a honestidade.

Por que as crianças mentem?

As primeiras mentiras costumam aparecer entre 2 e 4 anos. Pesquisas mostram que elas estão ligadas ao amadurecimento do pensamento: para mentir, a criança precisa entender que o outro não sabe tudo o que ela sabe, o que é uma conquista do desenvolvimento (Talwar e Lee, 2008). Isso não torna a mentira certa, mas ajuda a vê-la como algo a ser ensinado, e não como um defeito de caráter.

Os motivos mais comuns são parecidos com os dos adultos: medo de castigo ou de decepcionar os pais, vontade de conseguir algo, dificuldade de responder ao que foi exigido, vergonha ou baixa autoestima, e às vezes simplesmente tornar as coisas mais fáceis.

Mentira ou imaginação?

Até por volta dos 4 ou 5 anos, fantasia e realidade se misturam. A criança que conta que viu um dinossauro no quintal ou que tem um amigo invisível não está mentindo no sentido moral: está imaginando. Nessa fase, vale entrar na brincadeira e, aos poucos, ajudar a separar: "Que história incrível! Isso aconteceu de verdade ou é de imaginação?"

Castigar a mentira faz a criança mentir menos?

Não necessariamente, e pode ter o efeito contrário. Um estudo comparou crianças de escolas com disciplina muito punitiva e de escolas sem esse tipo de punição: as que viviam num ambiente punitivo mentiam mais e com mais habilidade, para escapar do castigo (Talwar e Lee, 2011). Outro estudo mostrou que dizer à criança que a verdade deixa o adulto feliz aumentava a honestidade, enquanto a ameaça de castigo, sozinha, não aumentava (Talwar, Arruda e Yachison, 2015). Em casa, isso significa que a criança precisa sentir que contar a verdade é mais seguro do que esconder.

O que fazer quando a criança mente?

E se a criança mente muito?

Quando as mentiras são frequentes, vale olhar para o que está por trás. A criança sente que é punida com muita dureza? Tem medo de decepcionar? Está escondendo algo que a envergonha? Está tentando chamar atenção porque recebe pouca atenção positiva? Às vezes, mudar o clima da casa, com menos punição e mais conversa, diminui as mentiras mais do que qualquer castigo. Também ajuda reservar um tempo diário de atenção total para a criança, sem correções.

Quando a mentira pode ser um sinal de alerta?

Há uma situação que merece atenção especial: quando a criança passa a esconder coisas, negar algo com muito medo ou guardar segredos que a deixam angustiada. Às vezes, quem pede segredo é um adulto ou um adolescente mais velho, e a criança se cala por medo ou porque foi ameaçada. Por isso é tão importante ensinar a diferença entre surpresa e segredo e deixar claro que ela nunca vai ficar de castigo por contar algo que aconteceu com ela. Escrevi sobre isso em como falar sobre abuso sexual com crianças.

Como ensinar a honestidade no dia a dia?

Honestidade não nasce do medo, e sim da confiança. Como mostro em maturidade emocional se constrói, o que a criança aprende a fazer com o que sente, inclusive com o medo de errar, ela leva para a vida.

Quando procurar ajuda?

Vale conversar com o pediatra ou com um psicólogo infantil quando as mentiras são muito frequentes depois dos 7 ou 8 anos, vêm junto com outros comportamentos preocupantes, como agressividade, furtos ou isolamento, ou quando você percebe medo intenso, segredos ou mudanças bruscas de comportamento. Nesses casos, a mentira pode ser a ponta de algo que precisa de cuidado.

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Referências

Texto revisado em outubro de 2026. Conteúdo educativo: não substitui avaliação pediátrica ou psicológica.

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